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Filipe Bortolini
tem 22 anos, é estudante de Informática da UFRGS, e atualmente
uma de suas maiores paixões é escrever. Filipe está
realizando uma oficina de criação literária com o
escritor e Doutor em Letras Luiz Antônio de Assis Brasil, grande
autoridade no meio literário.
Náufrago
E
me peguei à deriva no mar das palavras, balançando livremente
na minha canoa sem remos. O sol forte na cabeça, a fome mortal
e eu ali sentado, olhando as palavras passar por sob meu casco sem conseguir
fazer nada. Enfiava a mão na água a cada pouco, na vã
tentativa de capturar algo, qualquer coisa que servisse de idéia,
mas os vocábulos simplesmente escorregavam por entre meus dedos
antes que eu pudesse prendê-los em meu cérebro.
Minha
fome aumentava e eu continuava sem obter sucesso. Ao meu redor, aves de
todas as espécies mergulhavam e, após um breve segundo,
emergiam trazendo palavras presas em seus bicos. As mesmas aves que roubavam
as palavras que eu porventura colocasse em minha canoa.
O
sol a pino me impedia de enxergar as palavras que elas carregavam. Se
ao menos eu pudesse vê-las... Ao menos seria como um mendigo que,
da vitrine de um restaurante caro, assiste enquanto outros comem pratos
que ele jamais comerá e depois sai pelas ruas, ainda com fome,
mas sentindo o gosto das imagens.
Assim,
imaginei-me um pássaro, voando livre pelas nuvens de letras, mergulhando
sempre que desejasse alguma palavra, emergindo gloriosamente com o conhecimento
na ponta do bico e voltando saciado para o azul tranqüilo.
Mas
quis o destino me colocar numa canoa a deriva, sem vara nem remos, condenado
a vagar em busca de palavras selvagens, um eterno náufrago de minha
própria obra.
Quis
o destino que eu fosse escritor.
28/11/2002
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