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Filipe Bortolini
tem 22 anos, é estudante de Informática da UFRGS, e atualmente
uma de suas maiores paixões é escrever. Filipe está
realizando uma oficina de criação literária com o
escritor e Doutor em Letras Luiz Antônio de Assis Brasil, grande
autoridade no meio literário.
Entrevista com o Inácio
 Nessa
coluna, como prometido, trago uma entrevista com Inácio, o esqueleto
utilizado para estudos no IEESTA.
Para
quem não conhece o entrevistado, alguns dados necrográficos:
Inácio, que não revela seu sobrenome, está no IEESTA
há mais de 20 anos. Por pura vaidade, não conta há
quanto tempo descarnou nem o que faz para manter a forma física.
Participa das aulas de Ciências das 4as e 7as séries e do
2o grau, servindo como base para o estudo do esqueleto humano. É
figura folclórica da escola e é adorado por todos, principalmente
pelas crianças, que lhe dão um abraço de bom-dia
todas as manhãs.
Nessa
entrevista, Inácio revela um pouco do que se diz no além
sobre os esqueletos nos armários do Palácio do Planalto
e de Brasília, demonstrando um conhecimento de fatos e números
de fazer inveja a muita gente viva.
Filipe:
Em primeiro lugar, gostaria de agradecer sua disposição
em conceder esta entrevista e revelar coisas do além.
Inácio: Obrigado. Na verdade, eu gostaria de agradecer a
oportunidade de falar com alguém, pois minha "vida" aqui,
às vezes, é bastante solitária. Apesar de estar sempre
rodeado por crianças e professores, ninguém conversa comigo.
Se eu falo com as crianças, elas saem correndo apavoradas; se falo
com um adulto, ele pensa que foi imaginação e não
me dá bola. Nunca ninguém havia sido louco o suficiente
para conversar comigo. Apesar de que, pelo que eu conheço o povo
daqui, vão pensar que foi você que inventou tudo o que eu
estou falando, pois muito do que falarei nem é segredo.
F:
Bem, é o preço que se paga por falar a verdade. Sempre se
corre o risco de não ser compreendido, certo?
I: Com certeza. Você mesmo serve de exemplo: não teve
gente que pensou que você queria fechar o CTG e que você estava
contra os jovens naquele texto sobre o Posto Barão? Quando for
escrever, não esqueça que você vive num país
onde 30% da população é analfabeta. Aliás,
é de surpreender que alguém se entenda.
F:
Tudo bem, mas vamos ao que interessa: é verdade que você
sabe coisas que se falam no além sobre os esqueletos nos armários
do Palácio do Planalto?
I: Olha, eu sei o que eu pego no ar, que eu vejo
aqui e e até dou uma espiada no jornal de vez em quando. Mas, como
você não pode imaginar, as coisas no além são
como em Brasília: meio etéreas, há muita fumaça,
murmúrios e sombras indefinidas. Somente às vezes é
possível captar algo concreto. Mas existem muitos esqueletos em
Brasília, isso eu garanto.
F:Você
conhece algum dos esqueletos que existem por lá?
I: Apenas de vista. Não sou daquela turma e sempre preferi
ficar por aqui com as crianças, sendo útil de alguma forma.
Aliás, esta entrevista é mais uma forma de tentar ser prestativo,
pois muita gente não tem conhecimento do que se passa nos bastidores
do governo. Mesmo tendo várias coisas saindo no jornal o tempo
todo, ninguém presta atenção.
F:
Você poderia citar alguns dos esqueletos que estão escondidos
no armário em Brasília?
I: Vejamos, temos o esqueleto da Vale, o esqueleto do apagão,
o esqueleto das telefônicas, o esqueleto do Proer, o esqueleto da
parid ade
do Real com o dólar, o esqueleto do Sivam, o esqueleto da dívida
pública, o esqueleto dos impostos...
F:
Mas desse jeito tá mais pra Mausoléu do Planalto que pra
Palácio do Planalto...
I: Eh, meu caro, isso não é nada, se você soubesse
o que tem enterrado lá do tempo da ditadura militar, ia ter medo
até de andar na rua.
F:
Bem, nesse caso vamos ficar com os esqueletos mais recentes. O que você
poderia nos dizer sobre o esqueleto da Vale, por exemplo, que é
o mais atual?
I: O esqueleto da vale foi parar no armário em 1998, cerca
de um ano após a privatização. O Benjamim Steinbruch,
que foi o presidente do consórcio vencedor do leilão, falou
para o ex-ministro das comunicações Luiz Carlos Mendonça
de Barros que o então presidente do Banco Central, Rogério
de Oliveira teria cobrado R$ 15 milhões como propina pela formação
do consórcio. O Oliveira negociou com os fundos de pensão
para formar esse consórcio e ganhar do grupo formado pela Votorantin
e alguns investidores estrangeiros, pois o governo achava que isso era
melhor para o país. Bem, o problema é que, ao ficar sabendo
dessa acusação, o Mendonça de Barros falou para o
FHC sobre o acontecido. O ministro da Educação, Paulo Renato
de Souza (que foi quem admitiu pra Veja que tinha conhecimento do assunto)
também ficou sabendo, mas nem ele, nem FHC, nem ninguém
tomou qualquer atitude. Segundo os tucanos, o pedido era algo sem importância,
uma vez que o valor não foi pago. Quer dizer, para o PSDB, cobrar
propina é algo inocente. Crime, só se pagar.
F:
Minha nossa, com essa até eu me surpreendi. Você tem certeza
disso?
I: Claro que eu tenho, além do que se fala no além,
está tudo nos jornais. O problema é que as pessoas não
lêem sobre política e depois ficam chocadas por um minuto
e depois esquecem ou dizem que é invenção e paranóia
dos que são contrários ao governo. Veja o caso da conta
do apagão: alguém que você conhece fez algum comentário
com você sobre o assunto?
F:
Não, ninguém. Quer dizer que existe mesmo um esqueleto do
apagão no Planalto?
I: Claro que existe, e esse ainda nem descarnou direito. Ele foi
parar lá do seguinte modo: quando resolveram privatizar as estatais
do setor elétrico, os gênios tucanos ofereceram contratos
que cobriam quaisquer riscos dos investidores. O racionamento fez com
que as distribuidoras tivessem um prejuízo (calculado por elas)
de R$ 5 bilhões. Assim, o governo pagou os prejuízos das
empresas privadas e criou o "Seguro Apagão", aumentando
a conta em 2,9% para os consumidores residenciais e 7,9% para as indústrias
durante três ou quatro anos. Ou seja, o povo vai pagar mais por
ter sido obrigado a consumir menos.
F:
Quer dizer que o governo faz contratos descabidos, as distribuidoras não
investem em precaução contra crises e nós é
que pagamos a conta?
I: Exatamente. E isso sem falar na contratação de
58 usinas móveis para o Programa de Energia Emergencial que vão
custar R$ 16 bilhões em três anos. Se essas usinas fossem
construídas pelo governo, o gasto total seria de R$2,5 bilhões,
fora combustível e custo de manutenção. Veja o exemplo
da usina de Cabo de Santo Agostinho, no Pernambuco: seu aluguel foi fixado
em R$ 139,6 mil por MegaWatt ao mês. Se ela ficar parada durante
três anos e meio, vai receber R$ 281 milhões. Para construir
e equipar uma térmica igual a essa, o governo gastaria, no máximo,
R$ 80 milhões.
F:
Esse esqueleto saiu caro, hein?
I: Que nada. Deixa eu te contar do esqueleto do Proer. Você
lembra que em 1995 o Banco Central realizou intervenções
financeiras no Banco Nacional, no Econômico e no Bamerindus, certo?
Pois bem, isso foi feito porque, devido a má administração
e à corrupção, os três estavam falidos e, se
eles quebrassem, poderia haver uma onda de quebra dos bancos que eram
seus credores. Assim, o governo interviu pagando as dívidas, num
total de R$ 26 bilhões. Passados sete anos, os bancos ainda não
foram liquidados para recuperar esse dinheiro e, de qualquer forma, eles
teriam em recursos apenas R$16,252 bilhões para pagar o BC, o que
geraria um prejuízo para o país de R$ 9,828 bilhões.
Ah, e isso se os valores forem corrigidos pela Selic, a taxa de juros
básica. Se for pela Taxa Referencial (TR), que é a que costuma
ser usada nesses casos, o prejuízo é sete vezes maior, ou
seja, algo em torno de R$ 70 bilhões. E o melhor de tudo é
que os responsáveis pelo rombo estão todos livres e só
irão para a cadeia quando esgotarem todos os recursos em todas
as instâncias de julgamento, o que está previsto para 2008,
se eles não forem "inocentados" no caminho.
F:
Esse esqueleto deve ter sido o mais caro de todos, ou ainda fica pior?
I: Ih, meu caro, vai muito mais longe que isso. Ou você acha
que o esqueleto da paridade do Real com o dólar saiu barato?
F:
É mesmo, eu já estava esquecendo. Vou escrever um texto
especial sobre isso logo, logo.
I: Pois faz bem. Tem muita gente que não sabe que a paridade
foi paga com dinheiro do povo, num processo populista de enganação
que quase nos levou a um colapso pior que o da Argentina e que fez a dívida
pública saltar de R$ 70 bilhões para R$ 660 bilhões,
mesmo contabilizando
todas as privatizações e os R$ 90 bilhões pagos ao
FMI. Mas o FHC se reelegeu e isso é o que importa.
F:
Por falar em FHC, que história foi aquela de que pegaram ele num
grampo se oferecendo para interferir na privatização das
telefônicas?
I: Esse é um dos esqueletos mais comentados lá no
além, principalmente porque foi manchete em tudo que é canto
e o povo nem deu bola. O que se fala por lá é que se o Bill
Clinton fosse presidente do Brasil quando descobriram que ele transava
com a secretária na sala presidencial, diriam que enquanto ele
estava fazendo aquilo com a secretária ele não estava fazendo
com o país e reelegeriam ele de novo. Mas no caso do grampo, o
consórcio da Telemar (que acabou ganhando o leilão), tinha
o apoio da Previ, o fundo de pensões dos funcionários do
Banco do Brasil. Por motivos que nem lá no além se sabe,
o governo queria que o grupo formado pelo banco Opportunity ganhasse.
O presidente do BNDES na época, André Lara Resende, então,
ligou para o FHC dizendo que seria necessária uma "pressão"
para a Previ mudar de lado, que talvez o próprio FHC tivesse que
intervir e o Presidente da República respondeu: "Não
tenha dúvida".
F:
Não pode ser verdade. O presidente se dispondo a pressionar uma
empresa para dirigir o resultado de um leilão público?
I: Mas é verdade. As fitas com a voz de FHC estão
lá no armário, junto com o esqueleto das telefônicas.
Como a pressão não chegou a ser feita e a Previ não
mudou de lado, acho que interpretaram tudo como no caso da propina da
Vale: foi algo completamente inocente.
F:
Bem, nosso tempo está acabando mas eu gostaria de fazer mais duas
perguntas, posso?
I: Certamente. Aliás, quando você estiver em Marau
e precisar de alguma informação ou resposta, ou mesmo outra
entrevista, estarei a disposição.
F:
Obrigado. A primeira seria a seguinte: sobre a política de Marau,
o que se diz no além ?
I: Sobre política marauense eu não falo. Sou morto
mas não sou louco.
F:
A última pergunta: daria para você contar um pouco como é
o além, se existe céu e inferno e essas coisas?
I: Continua bebendo do jeito que você bebe que você
vai conhecer o além logo, logo.
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