Filipe Bortolini tem 22 anos, é estudante de Informática da UFRGS, e atualmente uma de suas maiores paixões é escrever. Filipe está realizando uma oficina de criação literária com o escritor e Doutor em Letras Luiz Antônio de Assis Brasil, grande autoridade no meio literário.


Foi sem querer querendo

A volta de Hugo Chávez ao poder na Venezuela causou visíveis constrangimentos aos Estados Unidos que, ao não condenar o golpe militar da semana passada, mostrou desprezo ao ideal democrático que tanto prega e colocou-se em situação delicada com o parceiro latino-americano.
Existem muitos interesses em jogo na Venezuela, que é o quarto maior exportador mundial de petróleo e o terceiro maior exportador para os EUA. Mais de 60% produção de petróleo venezuelano vai para os Estados Unidos, atendendo a 7% do consumo interno americano. Desta forma, a política de Chávez, que segue fielmente as taxas de extração de petróleo fixadas pela Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) e que dialoga abertamente com Fidel Castro e Saddam Hussein não agrada ao Tio Sam.
Assim, não surpreende o fato dos americanos não condenarem o golpe, ainda mais se levarmos em consideração que o presidente colocado no poder pelos militares, o líder empresarial Pedro Carmona, havia apresentado um programa de governo que incluía a suspensão da venda de óleo para Cuba, o afastamento da Opep e uma maior aproximação com os EUA. Os analistas mais afoitos já apostavam na privatização da PDVSA (Petróleos de Venezuela), a estatal petrolífera do país. Como se tudo isso não bastasse, Carmona dissolveu o Congresso e a Suprema Corte de Justiça, censurou as televisões, prendeu seus opositores e mandou cercar a embaixada de cubana. Qualquer semelhança com o Brasil em 1964 é mera coincidência.
A atitude dos EUA na questão confirma algo que já se sabia desde o início da administração Bush: seu governo não possui uma política externa consistente definida em relação aos países da América Latina. Além disso, prova que os americanos, assim como no tempo da Guerra Fria, estão dispostos a apoiar revoluções antidemocráticas, contanto que elas atendam a seus interesses.
No fim das contas, como diria a colunista Eliane Cantanhêde, da Folha de São Paulo: "O clima ainda está péssimo, com mortes e saques, mas o importante é que a aliança EUA-militares-empresários não derruba mais presidentes com tanta facilidade. Já não se fazem ditaduras como antigamente".

 

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