Filipe Bortolini tem 22 anos, é estudante de Informática da UFRGS, e atualmente uma de suas maiores paixões é escrever. Filipe está realizando uma oficina de criação literária com o escritor e Doutor em Letras Luiz Antônio de Assis Brasil, grande autoridade no meio literário.


O assassinato do Dr. Flores
parte IV - Final


Por mais que eu insistisse, Vazques nada disse no caminho até a casa. Eu pisava fundo, forçando o motor do Fusca pelas crateras da estrada. Quando chegamos, corremos direto para a sacada do quarto. Vazques, então, foi até a cadeira onde o Dr. Flores havia sido encontrado. Analisou o buraco que a bala havia feito quando atravessara o assento e alojara-se no chão. Pediu para que eu sentasse na cadeira do mesmo modo que o doutor foi encontrado e começou a falar.
- Como diz no resultado da autópsia, a bala entrou com uma inclinação de vinte graus, certo ? Você agora está na mesma posição que o doutor. Para que a bala entrasse nesse ângulo, o tiro teria que ser disparado com a arma estando em ângulo reto com o chão e, além disso, a arma teria que estar a um metro e meio de distância, por causa dos resíduos de pólvora.
Ele então, subiu em cima da mesa. Fiquei com medo de que ela cedesse ao enorme peso do meu companheiro. Mas ela agüentou firme, e ele continuou.
- O único modo de se fazer isso, seria se o assassino tivesse subido em cima da mesa e segurado a arma em ângulo reto, quase acima da cabeça (supondo que ele tivesse cerca de um metro e setenta de altura), com o braço esticado para a frente e atirado para baixo.
Eu escutava tudo, sem entender em que ponto ele queria chegar.
- Por que alguém faria algo tão anti-natural ? Sem falar que a mesa estava abarrotada de armas. E, se o assassino sabia dos testes de pólvora a ponto de disparar a arma na mão do doutor, certamente ele sabia dos testes para tiro à queima-roupa. Por que tentaria disparar desse modo, então ?
- Sim - balbuciei, confuso - mas o que houve, então ?
- O que houve não foi suicídio, mas também não houve um assassino.
- Como ?
- O que houve foi um homicídio culposo.
- O quê ?
- E o culpado é o próprio Dr. Flores.
Eu olhava embasbacado. Tentava falar, mas o ar me escapava, quando finalmente consegui formular algumas palavras, o máximo que consegui foi:
- Co-como ? Por que ?
- Você estudou física no colégio, certo ? E também fez aula de tiro na academia, não é ?
- Sim, mas o que isso tem a ver com esse caso ?
- É simples. O que acontece quando você arremessa algo para cima ? O objeto sobe até que a força da gravidade faça ele parar e comece a puxá-lo para baixo. O objeto então, voltará com a mesma velocidade com que ele partiu. E isso vale para qualquer objeto, inclusive uma bala de revólver.
- Tudo bem - concordei - mas as chances de um tiro cair no mesmo ponto de partida são pequeníssimas. Qualquer desvio de um grau faz a bala cair a metros do ponto de disparo, sem falar em outros fatores, como o vento.
- Mas você lembra da noite em que o Dr. Flores morreu ? Não soprava nem sequer uma brisa, parecia que o ar estava parado.
- Lembro, eu não dormi a noite inteira. Mas, mesmo assim, seria muito difícil.
- Difícil, mas não impossível. O que aconteceu é que, bêbado, o Dr. Flores disparou a arma para cima e, sem querer, deu o tiro perfeito, que voltou exatamente no seu coração.
- Talvez o melhor termo para isso seja suicídio culposo - arremedei, e o detetive Vazques riu alto, segurando a barriga com as duas mãos.

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