Filipe Bortolini tem 22 anos, é estudante de Informática da UFRGS, e atualmente uma de suas maiores paixões é escrever. Filipe está realizando uma oficina de criação literária com o escritor e Doutor em Letras Luiz Antônio de Assis Brasil, grande autoridade no meio literário.


O assassinato do Dr. Flores
parte III


Eu estava cada vez mais perdido. Não era suicídio, estava claro. Por que alguém se mataria enquanto fumava um charuto e logo depois de ter enchido um copo com uísque ? Como se explicaria a ausência de pólvora no ferimento, se o Dr. Flores não tinha como segurar a arma tão distante do corpo ? E, mesmo que pudesse, por que ele o faria?
Se fosse assassinato, onde estava o assassino ? Como teria ele conseguido invadir a casa, cercada por muros quase intransponíveis, guardada por cães de guarda e, ainda assim, conseguir escalar a sacada sem que o Dr. Flores percebesse ? Se o assassino realmente havia escalado a sacada, como não havia qualquer marca na parede ou na grama ? Não havia sinal de arrombamento em qualquer parte da casa. Além disso, o sistema de alarme estava ligado a noite inteira. Mas, mesmo que o assassino houvesse driblado o alarme, por que não sairia pelo lugar que havia entrado, mas se trancado no quarto e pulado a sacada, o que era loucura ?
Comentei tudo isso com o detetive Vazques e ele balançava a cabeça a cada pergunta.
- Você tem alguma teoria ? - perguntei, exasperado.
- Vamos esperar o resultado dos testes - ele falou, pensativo.
Sentia-me como se estivesse preso em um labirinto, onde cada caminho errado levava a milhares de outros caminhos.
No dia seguinte, ainda estava preso neste labirinto. Sentados na delegacia, esperávamos o resultado, que deveria chegar ainda pela manhã. Quando o entregador pisou na sala, pulamos ao mesmo tempo das cadeiras e ansiosamente, começamos a examinar os documentos.
Na sacada, havia sete armas: seis estavam sobre a mesa e a outra estava perto da mão do Dr. Flores. Apenas esta última havia sido disparada, as outras não mostravam qualquer sinal de uso. Todas as armas eram pistolas de nove milímetros, pertencentes à coleção particular do doutor, que abrangia mais de cinqüenta objetos, desde espingardas de caça até revólveres minúsculos. A bala que matara o doutor havia sido disparada pela pistola que estava com ele. A pistola estava carregada com três cartuchos, provenientes da caixa de balas que estava na mesa. Desta caixa, faltavam apenas os três cartuchos que estavam na arma. Todas as armas, sem exceção, tinham as impressões digitais do doutor e nenhuma outra. Todas as digitais encontradas no quarto e na sacada também pertenciam ao doutor.
O relatório final da autópsia chegou logo em seguida. Não havia nenhuma novidade, a não ser a de que o Dr. Flores estava bêbado na hora do crime.
Agora eu estava realmente confuso. A arma que havia matado o doutor era realmente a que estava com ele. O assassino então, teria que ter matado o doutor com a arma, colocado a arma na mão dele e puxado o gatilho novamente. Isto era perfeitamente possível. Mas como seria possível se os únicos três cartuchos que faltavam na caixa estavam na arma e apenas um deles havia sido disparado ?
Ficamos ali lendo e relendo os resultados e nossas anotações, sem conseguir chegar a qualquer conclusão. Eu já havia desistido quando o detetive Vazques, que lia o relatório da autópsia, bateu o volume na mesa:
Guri, pega a chave do carro. Vamos pra mansão do Dr. Flores.

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