
Filipe Bortolini
tem 22 anos, é estudante de Informática da UFRGS, e atualmente
uma de suas maiores paixões é escrever. Filipe está
realizando uma oficina de criação literária com o
escritor e Doutor em Letras Luiz Antônio de Assis Brasil, grande
autoridade no meio literário.
O assassinato do Dr. Flores
parte II
A autópsia
tinha que ser feita na cidade vizinha, Potirã, pois em Quatinga
não havia necrotério. Rumamos para lá, afim de observar o procedimento
e esclarecer quaisquer dúvidas com o legista. Depois de uma
espera de duas horas no corredor do hospital, finalmente o
Dr. Castilho chegou. Era um sujeito esquelético, com pele muito branca
e olheiras profundas. Possuía uma barriga saliente, resultado
de anos de alcoolismo mal disfarçado. Quando nos cumprimentou
naquela tarde, estava obviamente de ressaca.
Dentro da sala de autópsia, ajudamos a colocar o corpo na
mesa, e o médico logo iniciou a cortar e abrir com a naturalidade de
quem destrincha um assado no almoço. Procurei não olhar muito para
a
cena, afinal, ver alguém serrar o crânio de uma pessoa e retirar o cérebro
com as mãos não é algo que eu considere fácil, mesmo sendo forte.
— Qual é a história ? — pediu, enquanto serrava as costelas
do defunto.
— Suposto suicídio — respondeu Vazques — mas nós duvidamos.
— Eu também — disse o legista.
Nos entreolhamos, satisfeitos, aguardando a explicação.
—
Como vocês podem observar, não há sinais de pólvora no ferimento. Ou
seja, a arma não estava perto do peito quando o tiro foi disparado.
A camisa deve ser levada para o laboratório para testes mas,
pelo que eu vejo, não há sinais de pólvora nela também. Isso significa
que a arma deveria estar, no mínimo, a um metro e meio ou dois longe do
corpo, e o nosso amigo não tem braços tão longos certo ?
Ele continuava a dissecar o corpo, analisando o ferimento.
— A bala entrou com uma inclinação de cerca de vinte graus
em relação ao corpo, atravessou o coração junto à veia aorta e saiu
pelas costas. Vocês encontraram a bala?
— Sim, ela já foi para a balística — respondi.
— Ele era destro, correto ? Pelo que eu posso perceber, nosso
amigo realmente disparou uma arma, pois há sinais de pólvora na mão.
Permanecemos por mais quinze minutos, mas não havia nenhum
outro indício visível. O doutor havia morrido por causa do tiro,
não havia qualquer sinal de doença grave que poderia motivar um suicídio,
nem de agressão ou luta. O Dr. Castilho recolheria amostras para
os testes de laboratório e nos mandaria os resultados assim que possível.
Voltamos para a delegacia já no fim da tarde. Apesar da nossa
excitação, não havia mais nada que pudéssemos fazer naquele dia.
O resultado dos testes de balística e das digitais só chegaria em
dois dias. Voltaríamos à casa do doutor na manhã seguinte para analisar
novamente a cena do crime e os arredores. O detetive Vazques me deixou em
casa e eu passei a noite remoendo o dia em minha cabeça. Não
consegui dormir, mesmo a noite estando menos quente que a
anterior.
Eu queria resolver aquele crime, mostrar que eu era capaz. Quando
finalmente fechei os olhos, o despertador tocou.
Cheguei na delegacia ainda ouvindo o barulho do relógio que
me acordara e, somente depois de uma grande xícara de café, comecei
a pensar direito. O detetive Vazques caminhava de um lado para
o outro, fazia anotações e sorria para mim de vez em quando. Ele também
não devia ter dormido, mas como sempre, esbanjava energia e bom-humor.
Gostaria de saber qual era o segredo dele.
Rumamos para a mansão, sacolejando no Fusca. A casa estava
vazia, pois a empregada havia mudado para junto de uma irmã. Subimos
outra vez até a sacada onde o Dr. Flores morera. Vazques por um
lado e eu pelo outro, começamos a analisar o parapeito da sacada. Não
encontramos qualquer sinal de que alguém houvesse entrado por ali.
Pular daquela altura seria algo improvável. Como a porta do quarto
estava trancada por dentro, pular a sacada era a única rota de fuga.
No entanto não havia sinais de corda ou qualquer tipo de ajuda para
que o provável assassino fugisse. Descemos até o jardim, a fim de
procurar pegadas perto das paredes. Não havia qualquer sinal de queda
na grama. Além disso, durante a noite, dois cães de guarda circulavam
soltos pelo jardim e, mesmo que não alertassem o Dr. Flores
sobre qualquer invasor, certamente dificultariam a fuga.
A casa era cercada por altos muros de pedra e, após inspecionar
toda a extensão dos muros dos dois lados, não encontramos qualquer
indício de escalada. No muro dos fundos havia inúmeras marcas
de tiro, que supomos serem dos disparos que o doutor costumava fazer.
Sem ter mais o que procurar por ali, rumamos até a casa onde
a empregada estava hospedada. Ela informou que os tiros no muro realmente
eram obra quase que diária do doutor e que não, ele não tinha
nenhum inimigo que ela soubesse, salvo a bebida.
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