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Filipe Bortolini
tem 22 anos, é estudante de Informática da UFRGS, e atualmente
uma de suas maiores paixões é escrever. Filipe está
realizando uma oficina de criação literária com o
escritor e Doutor em Letras Luiz Antônio de Assis Brasil, grande
autoridade no meio literário.
O assassinato do Dr. Flores
parte I
Lembro perfeitamente da noite em que o Dr. Flores morreu. Fazia calor
e nem a menor brisa soprava. Eu rolava na cama, ansioso. Era minha primeira
semana como detetive de polícia na cidade de Quatinga, no interior
do Rio Grande do Sul. Vivia num apartamento de um quarto, longe da família
e dos amigos, que estavam em Porto Alegre. Mas encarava tudo com o misto
de entusiasmo e resignação que há dentro de todo
o iniciante: ansiava por ação, por trabalho mas me contentava
com aquela mesmice, tentando fazer as menores coisas da melhor forma possível.
Sabia que quando houvesse oportunidade, mostraria meu valor.
A chance veio na manhã seguinte, enquanto eu organizava os papéis
de um arquivo antigo, para passar o tempo. A empregada do Dr. Flores ligou
desesperada, avisando que ele havia se matado. O detetive Vazques vestiu
o terno que mal conseguia abraçar o ventre redondo e me chamou
nervoso:
- Poltini - fez sinal com o braço - Vamos, guri, que hoje tu vai
trabalhar.
Percorremos sem muita conversa o caminho até a mansão. O
fusca se debatia pelas ruas esburacadas mas, contra todas as probabilidades,
conseguimos chegar vivos. Dona Neuma, que ligara para a delegacia, nos
esperava sentada na porta, chorando.
A casa fora construída há mais de cinqüenta anos. Tinha
dois andares decorados com os mais variados objetos antigos. Não
pude deixar de me impressionar com as armas antigas que decoravam as paredes
e os enormes quadros de caçadas. Subimos a escada em arco até
o segundo andar e depois até o fundo do corredor, onde era o quarto
do doutor. A cama estava arrumada e tudo estava em seu devido lugar. Na
sacada, que dava para os fundos da casa, estava o corpo.
O Dr. Flores jazia numa cadeira de couro, com as pernas esticadas e a
cabeça apoiada no encosto. Os braços pendiam ao lado, quase
alcançado o chão. Sob a mão esquerda, um charuto
pela metade. Sob a direita, uma pistola automática. A bala atravessara
o peito, saindo pelas costas. Uma poça de sangue rodeava a cadeira.
Na pequena mesa, em frente ao corpo, várias pistolas, novas e antigas,
ocupavam todo o espaço, junto com um pano de lustrar, uma latinha
de óleo e uma caixa de balas. Um copo de uísque, quase cheio,
completava o cenário.
Eu observava a cena hipnotizado. O Dr. Flores tinha cerca de 60 anos,
era alto e calvo, com cabelos brancos circulando o crânio liso.
Eu o conheci assim que me mudei para a cidade. Com gripe fui até
o consultório dele, que era o melhor médico do local. Ele
me atendeu com presteza e bom-humor. Era um bom homem.
Sob as ordens do Det. Vazques, segui os procedimentos da academia: tirei
fotos, recolhi os objetos em sacos plásticos e assim por diante.
Enquanto os médicos retiravam o corpo, aproveitamos para falar
com a empregada. Ela nada ouvira durante a noite pois havia tomado remédios
para dormir. Mas, segundo ela, mesmo que tivesse escutado algo, não
teria se espantado, pois o Dr. Flores costumava atirar de vez em quando,
fanático que era por armas. Pela manhã, ela estranhou a
demora do doutor e bateu na porta no quarto dele, que estava trancada.
Como não obteu resposta, abriu a porta com uma cópia da
chave e encontrou o corpo na sacada.
Quando entramos no carro novamente, olhamo-nos com estranheza.
- Parece suicídio para você ? - perguntou o detetive Vazques.
- Não - repondi, convicto.
Nem pra mim - disse ele. E batendo a porta do carro, acelerou.
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