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Filipe Bortolini
tem 22 anos, é estudante de Informática da UFRGS, e atualmente
uma de suas maiores paixões é escrever. Filipe está
realizando uma oficina de criação literária com o
escritor e Doutor em Letras Luiz Antônio de Assis Brasil, grande
autoridade no meio literário.
Pedro ganha um tigre numa rifa
Não foi Pedro quem percebeu que aquilo não acabaria bem.
Dona Adelina, a mãe, também não foi, apesar de olhar
pela janela de vez em quando para ver se tudo estava bem com o menino
que brincava, alegre, com o recente prêmio. Não gostou muito
do brinquedo mas, agora, já estava se conformando. As gargalhadas
do filho faziam com que lembrasse da infância, quando pia cheia
e cueca suja de marido nem passavam por seus pensamentos.
Seu Antônio, que deu o dinheiro do bilhete, foi quem notou que o
filho estava passando um pouco dos limites quando descia a ladeira em
alta velocidade. Não gostou quando ganhou a rifa e agora gostava
ainda menos. Nunca teve brinquedos e passou a infância ajudando
o pai na roça. Agora, tinha que agüentar um rebento que zanzava
ao invés de estudar ou auxiliar na loja.
Pedro, alheio às preocupações dos pais, corria de
um lado para outro com a Monaretta No.6, que reluzia escarlate ao sol
da tarde. Subia a ladeira que havia na outra quadra e, quando seu vizinho
sinalizava que não vinham carros, descia zunindo, inclinando o
corpo à frente, quase encostando o queixo no guidom, o cabelo brigando
com o vento. Acostumado aos poucos carrinhos que a renda da família
permitia, a bicicleta era o melhor presente que havia ganho na vida. Seu
bilhete, de número 36, foi o sorteado na rifa da paróquia
para o Dia da Criança. Levou menos de três dias para aprender
a andar, tamanho o entusiasmo. No quarto, já descia a ladeira e,
até domingo, esperava conseguir andar sem dirigir com as mãos.
Era o único menino em três quarteirões que tinha uma
bicicleta e a sua era, sem dúvida, a melhor de toda a cidade.
Naquele sábado, ao entardecer, tentava tirar as mãos do
guidom enquanto pedalava, às vezes quase conseguindo, quando escutou
Dona Adelina gritar, aos prantos, que fosse chamar o pai, por que a vizinha
estava caída no pátio, talvez enfarte. Embalou para a venda,
desesperado, pois nunca havia visto a mãe daquele jeito. Quando
estava chegando, escapou por pouco de atropelar Ítalo, o vizinho
da frente, de oitenta e dois anos, que saía carregando um saco
em cada braço, com muito custo equilibrando as compras.
Seu Antônio, que tinha acompanhado o velho até a porta, ao
ver a cena, não esperou explicação: plantou a mão
no ouvido do menino, que caiu por cima da bicicleta, sem entender direito
o que o havia acertado. Já estava pronto para bater novamente quando
Pedro, em pranto, avisou o que estava acontecendo. Gritou para o funcionário
que tomasse conta, virou as costas e foi em direção à
casa, deixando o filho chorando, estendido no chão. Ítalo,
sempre amigo, largou as compras e foi ajudar o garoto a erguer-se, dizendo
que não era nada, que Seu Antônio era nervoso e outras palavras
consoladoras.
Pedro observou, com os olhos cheios de lágrimas, a velha camioneta
do pai passar, rumo ao hospital. A vizinha, soube depois, teve apenas
uma queda de pressão. À noite, na cama, escutou o barulho
do motor quando a camioneta entrou na garagem e os passos do pai cruzando
o corredor, sem se deter. Dormiu com um zumbido no ouvido e a face púrpura.
No outro dia, a bicicleta não estava mais lá.
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