Filipe Bortolini tem 22 anos, é estudante de Informática da UFRGS, e atualmente uma de suas maiores paixões é escrever. Filipe está realizando uma oficina de criação literária com o escritor e Doutor em Letras Luiz Antônio de Assis Brasil, grande autoridade no meio literário.


Voltas

É noite, e o homem está parado na frente da porta de sua casa. Os ombros pendem para a frente, denotando cansaço. Segura uma pequena valise com a mão esquerda. Olha através da porta de madeira, sem nenhum detalhe além do olho mágico. A mão direita desliza para dentro do bolso, roçando o linho da calça. O tecido prende os pêlos compridos das costas da mão, que desce até o fundo, apalpa e encontra um chaveiro. A mão começa o caminho de volta, segurando o chaveiro, ouve-se um tilintar discreto. O chaveiro sai pela fenda do bolso e o barulho do tilintar é mais forte. Ele é feito de couro marrom, tem o desenho de uma moto e os dizeres “Harley Davison Motorcycles” gravados em baixo-relevo dourado. Muitas chaves pendem no ar, ansiosas, mas o homem quer apenas uma delas. A chave da casa, a chave da porta da frente. Ainda com uma mão só, ele passa as chaves com as pontas dos dedos, até chegar na desejada. Cada uma tem uma cor. Amarelo-portão, verde-cadeado-da-garagem, azul-porta-da-frente, todas juntas num arco-íris de aço. Os dedos pousam sobre o objeto de desejo. Sentem o calor do metal e a textura. Buscam a posição adequada, pressionam. A chave ruma pelo espaço, faiscando sob a luz dos postes. Entra na fechadura, que aprova com tec-tecs delicados. Lá dentro, gira duas vezes, rotaciona peças, desarma mecanismos. Mais um pequeno movimento e o clic da trava sendo liberada. Logo a porta range, movendo-se para dentro com dificuldade, por causa dos jornais que atravancam a soleira. A chave passeia junto com ela, apaixonada pela fechadura, sua cara-metade. A fechadura também ama: só a chave a faz completa.
O homem entra na casa escura. A porta volta pelo mesmo caminho mas a chave é retirada com um movimento rápido da mão impaciente. Mais uma vez a chave viaja pelo ar, desta vez na escuridão. Atravessa as trevas sem medo, em busca da amada. Não encontra, recua, avança outra vez. Penetra o orifício metálico sem hesitação. O chaveiro, solto pela mão, bate na porta. As outras chaves observam tudo, mudas. Cada uma tem uma saudade, que não será satisfeita esta noite. Por hoje está tudo acabado.


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