Filipe Bortolini tem 22 anos, é estudante de Informática da UFRGS, e atualmente uma de suas maiores paixões é escrever. Filipe está realizando uma oficina de criação literária com o escritor e Doutor em Letras Luiz Antônio de Assis Brasil, grande autoridade no meio literário.


Férias

Quando saíram para aquelas férias, ambos sabiam que, quando voltassem, não seriam mais namorados. Ele porque tinha outra mulher na cabeça, ela porque tinha planos profissionais nos quais ele não se encaixava. Viajaram juntos, cada um fingindo estar mais feliz que o outro mas imaginando, por trás do sorriso, qual seria a melhor hora para dar a notícia.
Andaram de mãos dadas. Viram quadros, monumentos e até um teatro de fantoches na esquina de uma igreja. Mas andavam com a mesma certeza de que daquela viagem não passava. Além disso, não haveria oportunidade melhor: num belo cenário, uma separação amigável, a eterna amizade e a sensação de ter feito a coisa certa.
Pois chega o último dia. Entram num café e pedem o cardápio. Fazem o pedido como se escolhessem a melhor arma para usar na hora da notícia. Quando o garçom traz as xícaras, servem-se de açúcar analisando um ao outro como lutadores de boxe procurando a melhor maneira de encaixar o golpe. Ele decide por um jab: pede se ela está contente com a viagem.
— Sim, mas...
— Mas... ? — ele pede, recuando.
Neste momento o garçom chega trazendo os copinhos d’água e os biscoitos. Eles tomam o café em silêncio. Quando acabam, voltam para o hotel, abraçados para se protegerem do frio.
Arrumaram as malas conversando sobre como foi bom estar ali juntos, que aquelas férias jamais seriam esquecidas, que era uma pena não poderem ficar ali para sempre. De noite, saíram para jantar no melhor restaurante da cidade com o dinheiro que sobrara das roupas, dos ingressos e das lembranças. Pediram o prato mais caro acompanhado do champanhe mais famoso. O brinde foi a luz de velas, com os braços entrelaçados. De volta ao hotel, treparam na grande cama de casal e depois, abraçados, dormiram .
De manhã, sentados no banco de trás do táxi, a caminho do aeroporto, cada um olhava para um lado da rua. Iam de mãos dadas, apertando-as quando passavam por algum ponto que deixaria saudades. No avião, espiaram pela janela até que desaparecesse a última casa e só houvesse o mato e a colcha de retalhos de fazendas e plantações.
Noutro táxi, a caminho de casa, cochilaram. Ela com a cabeça no ombro dele. Quando pararam na casa dela, ele ajudou a descarregar as malas. Depois de um longo abraço, um beijo e um “até amanhã”, ele entrou no táxi e foi pra casa. Nunca mais se falaram.






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