Filipe Bortolini tem 22 anos, é estudante de Informática da UFRGS, e atualmente uma de suas maiores paixões é escrever. Filipe está realizando uma oficina de criação literária com o escritor e Doutor em Letras Luiz Antônio de Assis Brasil, grande autoridade no meio literário.


Amarga surpresa

Nas histórias de ficção, ao menos, nas bem escritas, não existem surpresas. Não é possível matar um personagem de repente, apenas para tirá-lo da trama ou para acabar o texto. Não é possível escrever uma narrativa fantástica, cheia de acontecimentos inexplicáveis e depois finalizar com o personagem acordando de um pesadelo. O que existe na ficção, principalmente nos contos, onde o final surpreendente é mais usado, é a surpresa inevitável. O final pode ser completamente inesperado para quem lê o texto pela primeira vez, mas, numa análise mais atenta, o leitor deve perceber, através de indícios muito bem camuflados, que aquele final era o único possível.
Quando cursava a oficina literária com o Assis Brasil, ele sempre dizia que surpresas ocorrem apenas na vida real, não no conto. Surpresas como a que aconteceu com a Ellen e o Marcelo, só acontecem mesmo na vida real.
Eu conhecia a Ellen desde pequeno, devido à amizade de nossos pais. Viajamos muitas vezes junto com nossas famílias em excursões pelo Brasil afora. Lembro de uma oportunidade em que nos puxamos os cabelos por que ela sempre chegava antes de todo mundo e sentava no primeiro banco do ônibus, que era o lugar mais disputado pelas crianças. Era sempre ela que puxava as músicas e era sempre ela que defendia os irmãos mais novos quando os mais velhos se juntavam para sacanear os baixinhos.
O Marcelo foi meu colega do jardim à quarta série no Colégio Cristo Rei. No último ano, a diretora escolhia grupos da nossa turma - éramos os maiorais da escola - para ajudar a cuidar do recreio. Nosso trio era eu, o Carlão e o Marcelo. Eles eram os mais fortes da turma e eu, obviamente, sempre ficava bem perto dos dois quando tinha que passar bronca em alguém. Quando eu não conseguia copiar tudo que tinha no quadro, era o Marcelo que ficava comigo, me ajudando enquanto todo o resto da turma, inclusive a professora, ia embora.
O autor, que tem controle total sobre o que escreve, cria os personagens como os quer. Eles nada mais são que uma coletânea de palavras impressas, sobre os quais não se sabe nada além do que o autor mostra. Mesmo assim, o escritor não os pode matar, a não ser que suas mortes sejam muito bem justificadas e planejadas.
O Marcelo e a Ellen não eram personagens fictícios e eram muito mais que esses dois parágrafos que escrevi acima. Eram pessoas reais, que sonhavam e realizavam. Pessoas com as quais convivíamos, que faziam parte nossas vidas, nossas festas. E é inaceitável que pessoas como eles possam ser tiradas de nós sem justificativa alguma, por uma surpresa da vida real.
Se existe um Deus escrevendo esta história, espero que Ele possa nos explicar, quando também encerrarmos nossa participação nesta vida, por que desgraças como esta ocorrem. Que possa justificar tanto sofrimento e mostrar-nos que era inevitável que fosse assim.






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