Filipe Bortolini tem 22 anos, é estudante de Informática da UFRGS, e atualmente uma de suas maiores paixões é escrever. Filipe está realizando uma oficina de criação literária com o escritor e Doutor em Letras Luiz Antônio de Assis Brasil, grande autoridade no meio literário.


Transições

Parou na calçada, esperando o sinal fechar. Como sempre, a loira de vestido preto acenava para ele, do outro lado da rua. Pela primeira vez o sinal fechou e ele pôde chegar até ela. A mulher nada disse, apenas fez sinal para que ele a acompanhasse até um restaurante barato. Sentaram-se numa mesa encostada na parede. Ainda sem dizer nada, ela alcançou-lhe um cardápio sem qualquer inscrição na capa e ordenou-lhe que abrisse. No lugar dos pratos havia momentos de sua vida, com a descrição do que acontecera em cada um deles. No lugar do preços, constava o ano em que cada fato havia ocorrido.
- Escolha um prato - ela disse, tirando as finas luvas pretas. - O que você quiser.
Ele passou os olhos pelas iguarias: "Nascimento. Hospital Ernesto Dorneles, Sala de Cirurgia 7, Cesariana - 1969", "Primeira Vez. Banco de trás do carro, Natália - 1986" e assim por diante, por páginas e páginas, sem fim.
Pensou um pouco e pediu "Sex on the Beach, Califórnia, Carolyne, Intercâmbio - 1989". A mulher balançou a cabeça afirmativamente. Segurando-o pela mão, puxou-o até uma pequena porta nos fundos. Ele abriu a porta e deu um passo para o escuro. Mas não havia chão algum para receber o seu passo e ele caiu, caiu, caiu, por segundos, minutos, horas e continuava caindo, sempre.
Acordou apenas para constatar que continuava vivo. Fechou os olhos e adormeceu outra vez.

Estava na Califórnia, no dia que pedira. Sentia o vento soprar do mesmo modo e as estrelas confirmavam o sonho. Sentou no bar à beira na praia, aguardando-a. Como esperava, ela sentou-se no mesmo lugar. Trocaram os mesmos olhares, a mesma conversa. Amaram-se outra vez na praia, sentindo a água atingir os pés e o calor da areia a investigar seus corpos.

Acordou sorrindo. Finalmente havia atravessado a rua. Já estava ansioso por dormir outra vez, sonhar de novo. Talvez a loira de cabelo chanel lhe deixasse escolher outro dia e, então, ele escolheria outra transa . Quem dera pudesse passar a vida inteira assim. Tomou café, vestiu camiseta, tênis, bermuda. Foi correr no Parque da Redenção. Se ficasse bastante cansado, talvez conseguisse dormir mais cedo. Conferia o relógio seguidamente mas, quanto mais voltas dava no parque, menos voltas davam os ponteiros. Enquanto corria, pensava em algo pesado para comer no almoço.

Três sanduíches de carne, queijo, tomate e catchup. Devia ser suficiente para causar sono. Comeu na frente da televisão, assistindo programas de auditório em que mulheres rebolavam ao som de músicas cafonas. Devorou os sanduíches com determinação, apesar de não estar com fome. Deitou no sofá e fechou os olhos, à espera. Permaneceu ali por uma hora, mas nada aconteceu. Colocou os tênis para outra corrida. Até a farmácia.

As pílulas vermelhas estavam dentro de um saco sem qualquer inscrição. Três no máximo, falou o farmacêutico, enquanto contava o dinheiro. Tomou cinco pílulas assim que chegou em casa. Escovou os dentes e despiu-se, ficando apenas de cuecas. Estirou-se na cama: bastava esperar que batesse o efeito.

A loira aguardava do outro lado da rua, na porta da igreja de seu bairro. Estava vestida de branco e segurava uma rosa vermelha. Não havia mais ninguém na cidade, ele podia sentir. O céu nublado era cortado a cada pouco por chicotadas luminosas. A mulher falou alguma coisa, mas o vento não deixou que ele escutasse. Atravessou a rua e subiu os degraus até ela. De braços dados, entraram na igreja vazia. Silêncio. Nem mesmo seus passos atravessando a nave produziam qualquer som. No altar havia um caixão vazio apoiado sobre dois cavaletes. Quando chegaram até ele, a mulher abraçou o rapaz. Beijou-lhe a boca, sugou-lhe a língua, pressionou-o contra o corpo. Ele se entregou sem resistência. Depois do beijo, ela ajudou-o a deitar-se no caixão e deu-lhe a rosa para que segurasse junto ao peito. Então foi até a sacristia, voltando vestida com uma capa de chuva preta que lhe cobria o corpo inteiro.
- Você é Deus ? - ele perguntou, com o olhar distante, enquanto ela se dirigia para a porta frente.
Ela voltou-se, à meia distância da saída:
- Não. Apenas uma amiga dele - disse, vestindo o capuz que deixava apenas um círculo escuro no lugar do rosto. Deu meia volta e saiu para a tempestade.

Dois golpes de machado e a porta da frente cedeu. Os bombeiros trancaram a respiração, tentando evitar o cheiro afrontoso. No quarto, já atacado por vermes, o corpo apodrecia.






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