Filipe Bortolini tem 22 anos, é estudante de Informática da UFRGS, e atualmente uma de suas maiores paixões é escrever. Filipe está realizando uma oficina de criação literária com o escritor e Doutor em Letras Luiz Antônio de Assis Brasil, grande autoridade no meio literário.


O Nada

Na verdade, existem poucos temas sobre os quais um escritor pode escrever. Há quem afirme que existem apenas treze histórias principais possíveis e todas as outras são apenas variações. Tendo isto em conta, não é de se impressionar que escritores tenham bloqueios criativos, que são a incapacidade de combinar e variar estes temas de forma a criar algo original. Assim sendo, sempre chega o dia em que o autor precisa escrever mas não tem assunto. Escreve, então, sobre não ter nada sobre o que escrever.
Mas calma, caro leitor, pois esta ainda não é a minha hora. Eu tenho nada para escrever e escreverei sobre o nada.
Talvez a melhor metalinguagem para o nada fosse uma página em branco, mas isto não seria original, nem criativo. Nem ao menos seria um texto. Bem, definida a necessidade das palavras, precisamos agora de um cenário e um personagem. Lembre-se, caro leitor, esta é uma história sobre o nada. Sendo uma história, ela precisa ter alguns elementos básicos. Comecemos pelo cenário.
É um apartamento de um dormitório, situado num prédio à direita de um edifício grande, à esquerda de outro maior, de fundos para um muro e de frente para uma avenida movimentada. Não existem muitos móveis no apartamento. Na sala, uma poltrona na frente de uma televisão equilibrada sobre uma cadeira; na cozinha, uma geladeira e uma pia. A pia está cheia de pratos, talheres e embalagens de comida pronta e a geladeira está vazia. No quarto, um colchão de casal estendido no carpete. As roupas limpas estão empilhadas sobre um lençol, num canto. As sujas, espalhadas pelo chão, ocupam o resto do quarto. O banheiro não merece ao menos menção.
Perfeito. Um cenário simples, sem muitos móveis ou aposentos que necessitem de descrição. Não queremos nada muito complicado. Agora, caro leitor, precisamos de um personagem. Esta é a parte difícil. Lembre-se, precisamos encaixar o personagem no cenário. Não podemos colocar um multi-milionário-excêntrico numa poltrona velha, nem uma linda mulher dormindo no chão, cercada de calcinhas sujas. Precisamos de um solitário: sendo esta uma história sobre o nada, deve-se evitar personagens desnecessárias. Apenas uma pessoa é suficiente para não se escrever nada. Tenho uma idéia.
Olhe para a poltrona novamente, caro leitor. Há um homem de aproximadamente trinta anos sentado nela. Ele está vestindo apenas uma cueca samba-canção, portanto, é melhor que não olhemos ele de frente, pois seu pênis está completamente visível deste ângulo. Passemos para trás da poltrona. Na mão esquerda o homem segura um copo com um líquido transparente. Água, cachaça ? Não sabemos. Na outra mão segura o controle remoto da televisão, que está desligada.
Até agora estamos indo muito bem. Temos um cenário e um personagem. Poderíamos, agora, acertar alguns pequenos detalhes. Por exemplo, uma gota de suor escorrendo pelo rosto do homem. Afinal, se ele está apenas de cueca, é por que deve estar calor. E, se você olhar para o lado, vai perceber que a janela da sala está aberta. Não existem cortinas e, como o apartamento fica no nono andar, vê-se apenas o céu. Isto nos poupa de descrever uma paisagem e uma cortina, detalhes que não interessam em nada.
Há mais alguns pormenores. Por exemplo, o prédio é numa avenida movimentada. A janela da sala é de frente para a rua. Assim, há o barulho incessante de carros, buzinas e gritos de vendedores. E também há o cheiro. De mofo, de podre, de suor e de mijo. Tudo misturado de forma quente e grudenta. Sorte nossa, a janela estar aberta. Tudo no apartamento é asqueroso. Toque comigo esta parede, leitor. Sinta a camada de poeira e umidade que se misturam numa pasta amarelo-esperma. Precisaremos, agora, ir até o banheiro lavar as mãos.
Como eu já disse antes, o banheiro não merece menção mas, como estamos nele, é preciso descrevê-lo: uma pia, um sanitário e um chuveiro. Azulejos amarelos, louças pretas. Uma toalha de banho azul pendurada, um tapete marrom no chão. E também um cesto de lixo transbordando. Nada é interessante.
Lavadas nossas mãos, voltemos para a sala. Nosso personagem continua sentado na poltrona, mas agora o copo está vazio. O que era o líquido, não saberemos: eu, com certeza, não irei até lá para cheirar o copo. Nosso personagem... que tal um nome ? Não precisa ser um nome muito original, afinal, escrevemos sobre o nada. João. Pronto. João larga o copo ao lado da poltrona, entre vários outros que ali estão, cheios de líquidos das mais variadas cores, onde flutuam pontas de cigarro. Acomoda-se na poltrona e fica ali por vários minutos, olhando para a televisão desligada e sorrindo de vez em quando. Então fica sério, senta-se ereto na poltrona. Levanta o braço direito, no qual está o controle da televisão. Leva o indicador até o botão vermelho, no canto superior esquerdo do controle. Aponta para o aparelho, fecha um pouco os olhos. Aperta o botão. E nada acontece.






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