Filipe Bortolini tem 22 anos, é estudante de Informática da UFRGS, e atualmente uma de suas maiores paixões é escrever. Filipe está realizando uma oficina de criação literária com o escritor e Doutor em Letras Luiz Antônio de Assis Brasil, grande autoridade no meio literário.


Ocaso




Eu jazia no meio da sala, deitado no tapete. Enfarto. Rápido. Boa morte. Já faziam três dias que eu estava morto e ninguém havia me encontrado. Era uma situação incômoda, não apenas por que ninguém parecia ter sentido minha falta: havia larvas esburacando, comendo, cavando pelo meu corpo, e isso não era nada agradável. Sem falar no cheiro, uma mistura de gás de cozinha e merda de cachorro. Eu já não agüentava mais.

Levantei e fui até o banheiro me olhar no espelho. Meu rosto não estava diferente: branco e com olheiras profundas. Apenas os olhos tinham uma aparência estranha, estavam murchos, amarelos, com as pupilas totalmente abertas. Abri a camisa e pude ver meu peito sendo atravessado por minhocas carnívoras, que estouravam a pele e abriam sulcos. Arranquei as que estavam por cima e joguei no vaso, puxando a descarga. Tirei o resto da roupa e pude observar que por todo o meu corpo já havia sinais de decomposição. Não estava tão ruim mas por causa do cheiro, o velório certamente teria de acontecer com o caixão fechado. Melhor assim. Eu já não era muito bonito vivo e a morte, com certeza, não melhorou meu aspecto.

Resolvi tomar um banho pra ver se o fedor diminuía. Não precisei trocar a temperatura da água, pois eu não sentia absolutamente nada. Algumas larvas fugiram de meu corpo e foram levadas pelo ralo. Lavei-me duas vezes usando apenas as mãos, pois ao tentar usar a esponja, arranquei o couro do meu ombro esquerdo. Mas, mesmo tomando cuidado, quando saí do banho não restava nenhuma unha da mão nem do pé. Pelo menos não cheirava tão mal. Com um pouco de perfume, tudo estaria resolvido.

Vesti meu terno preto e minha camisa branca. Coloquei a gravata, com passador, e as abotoaduras de ouro, presente de meu pai. Chapéu de feltro, óculos escuros e luvas completaram o meu disfarce. Saí para a rua tomando cuidado para não me expor muito ao sol, com medo de algum efeito colateral. Eram onze da manhã e fazia calor, eu acho. Minha primeira parada foi na funerária, onde escolhi um caixão. Paguei a vista, afinal, não precisava me preocupar com o saldo do banco. Foi muito interessante escolher o próprio esquife. Até deitei dentro para ver ser eram confortáveis, afinal, eu não sabia como seriam as coisas. Só esperava não ficar consciente dentro do caixão, sendo comido pelas larvas. Mas eu já havia morrido há três dias e até aquele momento não tinha havido nada de túnel de luz ou de flutuar fora do corpo. Será que eu iria para o céu ?

A floricultura ficava a duas quadras dali. Ninguém reparou em mim durante a caminhada e a florista nem me olhou na cara. Apenas me deu um papel para escrever a mensagem que eu queria que constasse na coroa de rosas e perguntou se eu queria mais alguns vasos de flores para colocar ao pé do caixão. Pedi crisântemos e gérberas. Não conhecia nenhuma das duas, mas gostei dos nomes. Paguei com um cheque, só então percebendo que os legistas atestariam meu óbito como tendo ocorrido há três dias. O que banco faria ? Bem, não era problema meu. Agora eu já tinha um caixão e flores que eu mesmo havia escolhido. Seria um bom velório. Só precisava agora, saber onde eu seria enterrado.

O cemitério ficava longe dali, cerca de dez quadras, mas eu não tinha pressa. O sol não incomodava, pois eu não sentia calor nem suava. Entretanto, quando estava quase chegando, meu nariz começou a desgrudar com o peso dos óculos. Tive que parar numa farmácia e comprar esparadrapo para evitar um desastre. Consertei o dano com três pedaços da fita (dois horizontais, um perto dos olhos e outro na ponta, e um vertical, começando na testa e acabando pouco acima do lábio inferior). Entrei no cemitério onde pretendia passar a eternidade caminhado de cabeça erguida. Minha família possuía um pequeno jazigo com três gavetas, onde estavam o vô, a vó e o bisavô. Fiquei olhando para a gaveta superior por algum tempo, tentando entender que eu estaria trancado naquele cubículo por toda a eternidade que meu corpo levaria para se decompor. Confesso que era uma idéia assustadora.
Encontrei o coveiro lixando um túmulo antigo, cuja tinta estava podre. Pedi a ele que lavasse e pintasse o jazigo até o dia seguinte. Paguei adiantado, em dinheiro, prometendo uma recompensa se ele fizesse tudo direito, dentro do prazo. Observei ele começar o trabalho, lavando o jazigo com uma lata de tinta cheia de água com sabão em pó e uma vassoura de escovão. Depois vagueei pelo cemitério, observando os túmulos dos meus parentes e alguns amigos. Pensava em como teria sido com eles, se eles também haviam tido essa consciência post-morten.

Voltei para a rua, afundando o chapéu na cabeça. Por sorte, não havia encontrado com nenhum conhecido, pois imagino a sorte de histórias e boatos que apareceriam quando a data de minha morte fosse revelada. Mas aquela era minha última caminhada sobre a terra, eu não podia resistir. Resolvi, então, ir para o Parque Municipal, que era grande e cheio de alamedas cercadas por árvores e arbustos. Meu cheiro começava a ficar pior, e eu não poderia permanecer em ambientes fechados. No parque, andei por entre as trilhas, passei por lugares onde nunca tinha estado. Descobri até mesmo um pequeno olho d'água, que deixava um filete escorrer por entre pedras cobertas de musgo até uma pequena poça, onde um cachorro lambia. Ele não se importou com a minha presença. Bebi daquela água junto com ele, apenas pela beleza do quadro, pois não sentia sede.

Deitei à sombra de um chorão cujos galhos quase tocavam o solo. Passei a tarde ali, pensando em como minha vida tinha sido e outras pieguices que nos fazem chorar no leito de morte. Tive vontade de me enterrar ali mesmo, passar o resto de minha morte naquele lugar verde e silencioso. Porém, eu já havia feito todos os preparativos para meu velório e, além disso, seria difícil conseguir me enterrar perfeitamente. Eu acabaria alvo de alguma brincadeira de cachorro ou, pior ainda, poderia ser encontrado por uma criança, que ficaria traumatizada para sempre.

Quando o sol bambeou, procurei por um banco em que eu pudesse apreciar sua queda. Meu último ocaso. No dia seguinte eu ligaria para o hospital, avisando que havia um corpo na minha casa. Aguardaria deitado na cama, com as mãos sobre o peito. O sol começou a descer. Por sorte, havia uma carteira de cigarro e um isqueiro no bolso do paletó. Perfeito. Acendi um cigarro e fiquei observando o céu trocar de tonalidade. Um pedaço do meu lábio superior ficou grudado no filtro, mas não importava. Tragava com força, a fumaça saia pelos buracos que as larvas fizeram no meu peito, escapava pelo colarinho da camisa. Mas isso também não importava. O sol ia embora e um espetáculo de cores tingia o céu cada vez mais escuro. Eu observava a tudo, como se fosse a primeira vez.


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