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Filipe Bortolini
tem 22 anos, é estudante de Informática da UFRGS, e atualmente
uma de suas maiores paixões é escrever. Filipe está
realizando uma oficina de criação literária com o
escritor e Doutor em Letras Luiz Antônio de Assis Brasil, grande
autoridade no meio literário.
A
Volta -
Filipe Bortolini
A porta abriu uns poucos
milímetros, deixando entrever a cabeça de mulher que o olhava
com uma curiosidade hostil. Falou quem era, e a mulher, depois de analisá-lo
por mais de um segundo, abriu a porta e deixou-o entrar. Seu nariz foi
tomado pelo cheiro da fumaça do fogão a lenha e o barulho
das chaleiras fervendo chegou logo depois. No caminho para a cozinha,
o corredor tinha os mesmos quadros. Espiando
para dentro da sala pode ver o mesmo sofá, mas o tapete era outro
e não havia televisão. A mulher, que devia ser a empregada,
ofereceu-lhe uma cuia de chimarrão para aliviar o frio, e Pedro
aceitou mais por nostalgia que por necessidade. Olhou em torno da cozinha,
que continuava igual, com os mesmos móveis brancos e o fogão
a lenha no canto.
- Ela está lá
em cima, no quarto - disse a mulher, tão logo a cuia roncou.
Ele subiu as escadas reparando
no tapete gasto e no corrimão brilhante, cheirando a óleo
de peroba. Ao alcançar o patamar, parou para observar o quadro
da menina no jardim. O quadro já cuidava da escada antes dele nascer.
Não devia ter muito trabalho hoje em dia. Caminhou mais um pouco
e parou na frente de seu antigo quarto. Sem poder resistir, abriu a porta
devagar, sentindo o cheiro de mofo antes que seus olhos pudessem captar
qualquer objeto na escuridão. Afastou um pouco as cortinas e, para
sua surpresa, tudo estava do mesmo jeito que deixara há vinte anos.
Sua mãe transformara o quarto no "Museu de Pedro": os
brinquedos estavam ainda na caixa e as revistas de carro, empilhadas sobre
a mesa. Até mesmo os recortes sobre bandas colados no espelho estavam
no lugar. Saiu e fechou
a porta, que reclamou com um rangido.
O corredor estava escuro,
pois a janela do fundo estava fechada, mas ele sabia até onde tinha
de ir. Parado em frente ao quarto da mãe, o único barulho
era o de sua respiração. Empurrou a porta que estava apenas
encostada e o passado atingiu-lhe tão rápido quanto a claridade
feriu seus olhos. Deitada na cama, sua mãe era apenas uma leve
saliência nos lençóis. No quarto havia apenas a cama,
uma cadeira, o pedestal para o soro e uma pequena cômoda na qual
se acomodava uma televisão. Na primeira gaveta, aberta, estavam
enfileiradas caixas de remédios de tarjas preta e vermelha. Sobre
a cabeceira da cama, um pesado crucifixo de madeira, que fora presente
da bisavó de Pedro. Não havia mais armário, nem toucador.
Sentou-se na cadeira e permaneceu de cabeça baixa por alguns minutos,
fitando a madeira manchada do assoalho. Levantou a cabeça e inspirou
fundo. O ar do quarto era pesado e o ambiente, opressivo. Fitou a mãe
que dormia. As mãos, velhas e enrugadas, estavam cruzadas sobre
o peito e subiam e desciam com a respiração. O rosto estava
como as mãos, mas ainda era possível ver, na paz daquela
expressão, a mulher que ele havia deixado há vinte anos.
Estendeu a mão e ajeitou os cabelos curtos e brancos, passando
a ponta dos dedos no crânio e o polegar na testa. Permaneceu assim
por um tempo longo, depois colocou a outra mão sobre as mãos
da mãe e falou baixinhho:
- Mãe, mãe.
- As pálpebras abriram-se, revelando dois olhos desbotados e opacos.
- Eu voltei.
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