Filipe Bortolini tem 22 anos, é estudante de Informática da UFRGS, e atualmente uma de suas maiores paixões é escrever. Filipe está realizando uma oficina de criação literária com o escritor e Doutor em Letras Luiz Antônio de Assis Brasil, grande autoridade no meio literário.

 

As coisas de Pedro contam uma história- Filipe Bortolini

As coisas de Pedro descansam na penumbra do amanhecer. A pouca luz entra pela fresta nas cortinas de pano e risca o assoalho gasto. A cama, arrumada e vazia, ocupa a parte central do quarto e tem a cabeceira encostada na parede. A sua esquerda, sob a janela, há uma pequena mesa de madeira que faz às vezes de escrivaninha e, sobre ela, uma pequena pilha de livros e revistas simetricamente empilhadas e cobertas por uma grossa camada de pó. Na capa da primeira, pode-se ler "CARROS - Os melhores de 1979". Também na mesa, alinhados com a parede, estão quatro porta-retratos mostrando Pedro quando criança, Pedro quando adolescente e Pedro no exército. O outro mostra Pedro abraçando a mãe. Pendurado na parede, entre a cama e a mesa, há um espelho grande, no qual estão colados recortes de revistas e reportagens sobre as bandas The Doors, Beatles e Deep Purple. No espaço que resta, reflete-se um armário grande e sem portas, feito de madeira fina preta onde estão empilhados cobertores e travesseiros fuzilados pelas traças. Embaixo dos restos mortais dos cobertores, um saco grosso de plástico guarda um uniforme militar do exército e, ao lado dele, dentro de uma caixa de papelão, esconde-se um coturno preto e reluzente. Há também um sapato velho e um par de chinelos gastos. Noutra divisão, em cabides, estão calças boca de sino, camisas coloridas e um casaco de lã.

A claridade aumenta com o passar dos minutos e, agora, o espelho reflete uma caixa de brinquedos colocada entre o armário e a porta do quarto. Nela estão os poucos brinquedos que Pedro teve na infância: alguns caminhões de madeira, a coleção de bolas de gude guardada num saco de mercado e um bilboquê. Este último, que era o favorito de Pedro, consiste de duas partes de madeira amarradas por um barbante. A primeira parte tem o formato de uma pêra com um furo na base que encaixa na segunda, uma peça fina de uns vinte centímetros. O objetivo da brincadeira era, segurando a parte inferior com uma mão e o barbante que liga as duas peças uma com a outra, fazer a parte de cima soltar-se, girar no ar e encaixar novamente na base. Pedro vencera muitas competições deste brinquedo e, no fundo da caixa, há um círculo de pano com um alfinete atravessado, onde está gravado a inscrição "Campeão do Clubinho de Bilboquê - 1970".

Ocupando boa parte da parede oposta à janela, há um rosário pendurado em dois pontos, formando um triângulo em cuja ponta inferior pende o crucifixo. As horas passam e o risco de luz no chão corre para a janela e some. O quarto volta a ficar escuro, e a pouca claridade entra por baixo da porta, vinda do corredor. Depois de algum tempo, a escuridão é completa e as coisas de Pedro preparam-se para mais um alvorecer solitário.

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