Carla Viapiana tem 23 anos, é formada em Comunicação Social: Jornalismo pela UPF. É editora do suplemento jovem do Jornal A Folha Regional e sócia-professora do CCAA de Marau.

Crianças nas ruas

Um tanto atrasada, só pude assistir ao filme “Cidade de Deus” a algumas semanas atrás, no nosso velho e saudoso Cine Casa da Cultura. Que filme! Minha amiga Dini, que estava ao meu lado, me cutucava perguntando:
- Você deve estar de boca aberta?!
Eu meio boba, respondi:
- Hanrã!
Sabia que o filme era bom, já havia lido algumas críticas e ouvido comentários, mas nunca imaginei que fosse tanto. Até no Canadá, onde passei um mês, o filme teve repercussão. Lembro de uma entrevista do diretor na televisão, das propagandas nos jornais. Isso chamava a minha atenção, mas não mais que uma pergunta. As pessoas interessadas no Brasil queriam saber se o nosso principal problema era as crianças nas ruas. Não conseguia entender o porquê da questão. Pensava:
- Temos desemprego, analfabetismo, fome e tantos outros problemas, aparentemente mais sérios, e porque me perguntam sobre as crianças?
Eu, “politicamente correta” dizia que o nosso principal problema era a desigualdade social, poucos ricos e muitos pobres... E assim seguia o meu discurso. Somente depois de um tempo, consegui ligar o Tico e o Teco - que naquele mês andavam meio “congelados”. Na época, Cidade de Deus estava em cartaz em quase todos os cinemas. Sabia que o filme era sobre uma favela e havia alguns meninos na história que depois se tornariam traficantes “famosos”. Aí estava! Esclarecida minha dúvida! Perguntavam aquilo por causa do filme!
Hoje, depois de assistir ao filme e relembrar o causo no exterior, fico aqui pensando em duas coisas. Primeiro, o que passa na cabeça dos gringos. Com filmes como esse, passando no exterior, qual será a imagem do Brasil para eles? Um país pobre, com “crianças nas ruas”, favelas, Rio de Janeiro... Estamos passando uma fase bastante difícil, de muita violência, mas nosso país não é só isso. Somos uma nação que, apesar dos “Fernandinhos Beira Mares”, estamos “indo”. Segundo, será que eles não têm razão? Será que o nosso principal problema são as crianças? Não só as das ruas, mas os nossos filhos, primos, vizinhos, amigos, alunos. Que crianças estamos educando para fazer nosso país continuar “indo”?

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