Carla Viapiana tem 23 anos, é formada em Comunicação Social: Jornalismo pela UPF. É editora do suplemento jovem do Jornal A Folha Regional e sócia-professora do CCAA de Marau.

Vale a pena pedir desculpas?

Nesta semana, li que o governo australiano, do século 19 até os anos 1970, objetivando a “construção nacional”, retirou cerca de 50 mil crianças aborígenes de suas famílias e as enviou para orfanatos e lares adotivos, onde seriam “civilizadas”. Em 1997, uma publicação oficial contou o destino dessas crianças e acusou o programa de genocida, pois tentava extinguir os aborígenes. O relatório sugeria a criação do Dia da Desculpa, no qual australianos deveriam pedir perdão aos aborígenes. Desde então, muitos australianos consideram esta data e realizam palestras, assinam livros de desculpas e colam adesivos nos carros. Já pensou se nós brasileiros fizéssemos o mesmo? Se pedíssemos desculpas pelos nossos erros?
Eu começaria com a escravidão. Claro que esse não é uma mancha somente no passado do Brasil, muitos outros países têm histórias tão tristes quanto a nossa, porém aqui durou muito tempo, fomos o último país do mundo a acabar com o regime escravista. Enquanto outras nações se rendiam às máquinas, a elite brasileira fazia de tudo para continuar com a mão-de-obra escrava. Depois disso, pediria desculpas pelos anos de ditadura que o país viveu e, principalmente, pelo Ato Institucional nº 5, de 1968. Este decreto deu ao presidente da República poderes totais para perseguir e reprimir aqueles que não se enquadravam nos planos do governo. Pensando um pouco mais na atualidade, pediria desculpas por termos elegido Fernando Collor de Mello, Antônio Carlos Magalhães e tantos outros, infelizmente...
Mas espere aí, agora que já pedi desculpas por alguns erros do passado, uma pergunta está na minha cabeça: vale a pena simplesmente pedir desculpas? Será que reconhecer o erro resolve tudo como num passe de mágica? Adiantaria bater à porta de todos os negros do Brasil pedindo desculpas? Faria as famílias daqueles que morreram durante a ditadura sentirem menos a falta do pai ou do filho que morreu em busca de um mundo melhor? Adiantou termos ido às ruas pedir pelo impeachment do Collor ou pedir a renúncia do ACM (que já está lá de novo)? Acredito que pedir desculpas é um grande passo, porém não é tudo. É preciso muito mais que isso. Não se pode somente tapar os buracos da antiga estrada, é necessário reconstrui-la.

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